Sábado passado, durante um almoço com amigos queridos, vimos Miguel Falabella sucumbir ao Twitter. Em menos de quatro dias, ganhou 11 mil seguidores. Gostou tanto de ter contato com o público, que o acompanha por toda uma vida, que nos brindou com a primeira novela escrita em tempo real, no Twitter. Trata-se da saga da ganhadora do euro milhão Helene de Montmort (mulher que só pensava em bloquear as pessoas no microblog) e sua filha, @PiloriMontmort. É de chorar de tanto rir. E toda essa criatividade é feita na mesma hora e ao mesmo tempo do início dos ensaios do espetáculo A gaiola das loucas, com direção dele e de Cininha de Paula, no qual também atuará como protagonista, casado com o personagem de Diogo Vilela. Acharam pouco para o nosso gênio workaholic? Pois Miguel ainda está às voltas com o texto para um novo programa de humor para a TV batizado A vida alheia.
Você começou os ensaios para A gaiola das loucas. Quando leu o texto ou viu o filme pela primeira vez, de que forma foi tocado?
Vi o filme quando foi lançado, em 1979 e me lembro que fiquei impressionadíssimo com a qualidade do trabalho de Ugo Tognazzi e de Michel Serrault.
A sociedade ainda se choca com dois homens apaixonados?
Acho que não mais. Não há mais espaço para esse tipo de coisa. É claro que há quem ainda se choque, mas também é gente que não interessa.
Você fará o papel do dono da boate. Você já foi mais festeiro. Como seria uma boate idealizada por Miguel Falabella?
Eu já tive duas boates em São Paulo. A The Pool era um aquário humano com sereias e tritões fazendo a festa...
Alguns sites publicaram que haveria beijo entre o seu personagem e o de Diogo Vilela em A gaiola das loucas. Verdade?
Não tem beijo nenhum. Tem um afago no final, no happy end do musical. Mas se tivesse, seria ainda melhor.
O filme teve duas versões e a última delas foi um sucesso mundial. Você é o nosso autor-rei e o que podemos esperar desta montagem?
Acho que tanto eu quanto o Diogo temos estudado muito, porque não é uma partitura simples, mas, principalmente, estamos felizes de poder celebrar esse momento. É a primeira vez que vamos pisar no palco juntos, depois de tantos anos de carreira.
Você se afastou do Carnaval? A gente sente falta de ver Falabella, na Marquês de Sapucaí, com pouca roupa...
Tudo tem seu tempo. Eu já contei essa história, mas vou repetir. Uma vez, eu estava me arrumando e nenhuma roupa parecia cair bem. Eu vestia uma camisa, tirava e Maria, parada na porta do closet, só olhando. Uma hora, ela não aguentou mais e disse: “Hoje nada vai prestar! Sabe por quê? Porque a imagem mudou”. Sábia, Maria.
O que é pior: arrogância de jornalista ou ego de ator?
Acho que são bandos bem distintos que se reconhecem. Estou escrevendo sobre isso no seriado novo. Tudo acaba derretido na fogueira das vaidades, de qualquer maneira. O que não se pode perder, nessa relação de amor e ódio, é o bom humor e a sofisticação. Isso faz falta.
O programa Toma Lá Dá Cá sairá do ar em pleno auge. Por quê?
Você disse tudo. Saiu do ar em pleno auge. Vou sentir muita saudade do programa. Nós íamos gravar como crianças que vão ao circo. Toma Lá Dá Cá era desenho animado em carne e osso, como se Jessica Rabbit fosse jogada na Barra da Tijuca.
A vida alheia é o seu novo projeto para TV. Você consome a vida alheia? Lê revistas de celebridades?
Não. Não leio nada disso. Para ser franco, eu me interesso pela vida de pouca gente. Uma vez, o saudoso Carlos Kroeber me disse: “Tanta coisa boa que eu ainda não tive tempo de ler, não posso ler isso”. Faço minhas as palavras dele. Mas é claro que a gente vê as fotos quando corta o cabelo.
O que acha do fenômeno stand-up comedy no Brasil?
Há uma geração dedicada ao gênero. Alguns vão partir para outras experiências, ou não. Mas acho que tem muita gente talentosa chegando.
O humor do Pânico na TV e do CQC vai durar?
Outro dia encontrei o Rodrigo Vesgo, na ponte aérea, e a gente falou sobre isso. Sobre a necessidade de renovação. E voltando ao final do Toma Lá Dá Cá... tenho certeza de que vai ser lembrado com saudade. Eu particularmente concordei que era hora de parar. Sabe, Heloisa, a mesmice nos transforma em criaturas estranhas.
@Falabellareal em quatro dias ganhou 11 mil seguidores no Twitter. E os primeiros dias de tuiteiro?
Eu gosto de estar conectado com as pessoas. Tem muita gente legal e você tem uma resposta muito imediata de tudo. É claro que a tendência é diminuir, mas ainda estou na onda. Não tenho muito tempo, é claro, mas por enquanto estou achando engraçado.
Você viu de perto todo o bastidor da política cultural. O que te marcou mais? Pensa em voltar a ocupar um cargo político? Afetos ou mais desafetos naquele período?
Eu acho que, apesar dos pesares, fiz alguma coisa. E briguei por projetos nos quais acreditava. Procurei olhar os teatros de forma holística. Veja bem, a política de ocupação e de espetáculos que eu implantei na minha gestão era toda voltada para o público e quanto a isso estou tranquilo. Nunca os teatros estiveram tão cheios. Isso é um fato.
Miguel é um homem solidário e já tirou muito dinheiro do próprio bolso para investir em arte. Qual o cenário atual da arte no Brasil?
A arte vai sobreviver sempre, porque é ela quem dimensiona nossa humanidade. Talentos sempre vão surgir e, se forem fortes e souberem aguentar o tranco, vão acender a tocha, porque em última análise, essa é a missão. Como dizia Miss Dickinson: o poeta acende a luz e depois vai embora. Mas a luz... essa persiste.
Por Heloísa Tolipan / JB Online
Abraços!
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