8 de janeiro de 2010

Crônicas: No Mirante, Ainda Setembro (2001)




A guerra começou no domingo, mas antes disso, na sexta-feira, fui ao Centro, fazer o programa de minha amiga Leda Nagle, nosso velho e bom "Sem censura", e, como termina às seis da tarde, a hora do Angelus, com todas aquelas orações voando pelos ares, eu resolvi subir a ladeira, em direção a Santa Teresa. Com vontade de parar o carro e admirar a noite caindo sobre a cidade, perceber a palheta, antes da mancha de nanquim esconder o céu - um pouco assustado por cortar a floresta, já na escuridão, mas feliz por escapar do engarrafamento por toda a parte, lá embaixo - eu ia vendo, nos vãos do casario de então - os carros imobilizados, contas avermelhadas no colar do crepúsculo, quase que voando por entre as árvores. Eu seguia contornando o desenho do corpo de São Sebastião, as flechas magoando a carne e o sangue espalhado num resto de céu, lá longe, prestes a ser engolido pela boca da noite.
E houve um momento, a noite já tinha caído e eu me perguntava, no sacolejo das curvas, se teria mesmo feito a escolha acertada, sempre subindo, sempre para o alto, mas houve um momento em que a mata afastou a cortina e o Cristo apareceu a meu lado - um pequeno esforço e eu poderia ter tocado seu ombro, assim me pareceu. Não pude, entretanto, ver seu rosto, estava meio de costas para mim, mas nunca antes estive tão próximo, nunca antes tão a meu lado, pensei - lembrando das inúmeras vezes em que estivemos prostrados a seus pés, em adoração, em silêncio respeitoso ou em surdo ressentimento. Tantas e tantas vezes eu supliquei e estendi meu olhar até sua figura, tantas e tantas vezes desejei que ele tivesse sido mais generoso e menos implacável em suas decisões.
Acabei perdendo o medo e parei um instante para olhar a vida iluminada dos milhões de habitantes da cidade, recebendo o ar frio do oceano, que sacudia as folhas nas árvores. Ali, encostado no gradil de beijos roubados, respiração ofegante e desejo queimando a pele, ali no meio da mata, olhei para o ombro do Senhor e imaginei tanta coisa — parado ali, o mesmo olhar sobre a beleza das cidades iluminadas, vistas do alto, o mesmo olhar do menino interiorano que veio passar uma semana conosco. Sentou-se no carro e, no meio da serra de Petrópolis, vendo o clarão do Rio, ao longe, exclamou:
- Olha que tanto de estrela!
(Esse mesmo menino, ao ver Cláudia Jimenez interpretar a dezena de personagens de 'Como encher um biquíni selvagem', sozinha no palco, falando pelos cotovelos, apertou meu braço, numa lição de dar dó e gritou: 'Ela tá doida, sô! Corre que ela tá doida!')
Foi engraçado eu me lembrar dele, naquele momento, olhando o mar de estrelas a meus pés, tendo o Cristo a meu lado - meio de costas, não lhe avistava sequer o perfil - como fria testemunha. Eu apertei o ferro da grade descascada e tive vontade de gritar para o mundo que não podia me ouvir:
- Olha que tanto de estrela!
Mas guardei silêncio e preferi ouvir a música do vento nas ramas e o assobio das nuvens errantes que voam baixo, enchendo tudo de fumaça azulada, como se um sortilégio pairasse sobre as vidas das gentes, os corações urbanos congelados no salto. E ia pensando, uma idéia que gemeu lá dentro.
(O que mais eu posso lhe dizer que já não tenha dito? O que mais me traz esta noite de surpresa?, eu fui me inquietando, caminhando para o automóvel, um vento estranho me empurrando pelas costas. Um vento jovem, brincalhão, que me deixou assustado com a força de seu sopro.
O que mais eu posso lhe dizer que já não tenha dito?
Que gente não pertence a gente? Isso eu já lhe disse. Há algum tempo)
Finalmente, voltei para o carro e, quando a respiração normalizou-se, quando o medo sumiu do coração, das estrelas inatingíveis, pulei para as estrelas de carambola, cortadas à faca, e daí, aproveitando a dança da estrada, fui lembrando da correria de Cosme e Damião, na Ilha, ano após ano, pés descalços, peito nu, uma trilha de chocolate manchando a pele - as sacolas nas mãos dos meninos, cheias de doces coloridos - retângulos de geléia de duas cores, amarela e vermelha, salpicados de açúcar, o cone cheio de massa branca, pé-de-moleque, paçoca, pipoca doce, abóbora cristalizada, um ou outro figo no saquinho mais abastado - assim corríamos nós, crianças dos setembros idos, sempre aquela luz por toda a parte e o mar encrespado no fim da tarde, quando espalhávamos o produto da colheita sobre a mesa da cozinha - doces e doces nas mãos dos filhos do Brasil.
Antes de iniciar a descida em direção à Barra, arrisquei um último olhar e recitei baixinho uns versos de Lamartine de que gosto muito: 'e que minha voz possa ao Senhor se erguer, como fumaça adocicada, balanço de urna perfumada, nas mãos dos meninos a correr'.
E, quando dei por mim, já era várzea. Quando me lembrei de prestar atenção, já era lar.

O Globo - 11/10/2001

Abraços...

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