23 de dezembro de 2009

Toma Lá, Dá Cá: Gargalhadas e Lágrimas



Só agora minha ficha começou a cair. Eu ainda jazia envolta a uma máscara de esperança e expectativa, a qual me fazia acreditar que todas as más notícias eram sonhos, ou, quiçá, pesadelos. Hoje não pude evadir-me do sevo embate com a realidade. O Toma Lá Dá Cá não existe mais, somente em nossas memórias. Seguiu rumo ao caminho das estrelas e nos deixou nesta Terra acamada, que a cada dia perde um pouco de seu fulgor, graças ao desmazelo e descaso de seus residentes. Mesmo sendo uma época tão pulcra e próspera, não podemos deixar de nos lamuriar. Não será um natal como os outros. Nesse, ao invés de auferirmos, perderemos. A lista de condolências reúne milhões de assinaturas, todas sorumbáticas e alanceadas. Ninguém sabe o que fazer para outra vez bosquejar um sorriso, que se encontra perdido num mar de lágrimas e prantos.
Mas o “Toma Lá, Dá Cá” sempre foi unívoco de júbilos e gargalhadas. Talvez a singular forma de cicatrizar esta chaga é relembrarmos os bons momentos que passamos em frente da televisão, acompanhando as insanas histórias das famílias Moreira e Dassoin. Desde a incrível jornada para dispor uma virtuosa patuscada de fim de ano a alucinada fuga de favelados rixosos. Das histórias de Pato Branco aos loucos relatos amorosos de Copélia. Dos preconceitos para com Dona Deise ao caudilhismo de Dona Álvara. Da mente elucidativa de Adônis a embriagueis de adágios da Isadora. Todos, definitivamente todos, esses momentos abrilhantaram e avivaram as nossas terças, que padeciam das más faxinas perpetradas por programas anteriores.
Nestes quase três anos, assoalhávamos a cada semana um pouco mais da personalidade dos treze personagens que pelo Jambalaya Ocean Drive passaram, além de nos derretermos de amores pelas ingentes participações especiais, como as das deidades Marília Pêra, Jacqueline Laurence e Aracy Balabanian, dos venerados Francisco Cuoco, Mauro Mendonça e Otávio Augusto, das acentuadas Débora Duarte, Juliana Paes e Maria Padilha, dos hilariantes Sandro Christopher, Tato Gabus Mendes e Kiko Mascarenhas, entre tantos outros que garantiam nossas risadas hebdomadárias.
Jovens atores com talentos excepcionais foram descobertos e os já consagrados corroboraram o conceito de que o tempo só ajuda a aquilatar a modo de atuar. Através da doméstica paranaense Bozena, pudemos visar com outros olhos à atriz Alessandra Maestrini, que se consolidou como uma das melhores de sua geração, tendo granjeado, em 2007, o “Prêmio Arte Qualidade Brasil” de Melhor Atriz Humorística. O mancebo Daniel Torres conseguiu fazer de seu personagem Adônis um grande sucesso e, sem dúvida alguma, em breve estará pleiteando o titulo de galã de uma novela do horário nobre. Stella Miranda enfim conquistou seu lugar ao sol e fez de sua personagem, a déspota Dona Álvara, um dos mais altissonantes sucessos do programa. Sua versatilidade e um modo de atuar característico foram receitas fundamentais para alcançar este tão invejado sucesso.
Arlete Salles e Ítalo Rossi, os veteranos da série, finalmente conseguiram rubricar seus nomes na preciosa lista dos melhores da dramaturgia brasileira, dando vida a Copélia e Ladir, respectivamente. Seus bordões caíram na boca do povo e seus personagens foram, de longe, os mais acentuados de suas carreiras. “Prefiro Não Comentar” e, mormente, “É Mara”, foram bordões que passaram a ser usados por grande parte da população brasileira, que só não acompanhava de perto a saga desses personagens, porque tinham de trabalhar cedo no dia ulterior. Adriana Esteves surpreendeu a todos, propalando sua veia cômica. As improvisações de Miguel e os afáveis erros dos atores laureavam dignamente os episódios.
Graças ao programa conheci amigos que ficarão marcados para sempre no peito. Amigos lhanos, fidos, solidários e afáveis, os quais têm em comum o amor à vida e as coisas boas que a mesma pode nos oferecer. Cultivar, nestes quase três anos, uma forte corrente, na qual não é consentida a entrada de elos mortiços. Juntos, somos imperecedouros, indefectíveis, belicosos, mas também doces e álacres. Não é qualquer flagelo da natureza que é capaz de nos derribar. E o mais admirável é que o humorístico do Miguel e da Maria Carmem foi o responsável por tudo isso.
Todavia, nem só de júbilos viveu o programa. Houve momentos de profundas angústia e amarguras, como o egresso inopinado de Ítalo do programa, o qual foi dedicar-se ao teatro – hoje pudemos ter a prerrogativa de ouvir sua rouca voz, mesmo que por alguns minutos –, e a repentina morte de Miguel Magno, de todos, o acontecimento mais funesto, o qual deixou nossos corações de luto. Mas a vida geralmente é adjudicada de fazer os piores papéis. É injusta e censurável. Temos que tomar cuidado, pois a qualquer momento ela pode nos dar uma rasteira. É um bicho prosaico e arisco, afanoso de jugular. Ninguém esperava. Foi verdadeiramente um abalroamento para todos nós, fãs ou não fãs da série. Paisagem em preto-e-branco. Sentimento funéreo.
Esse dia 22 de dezembro jazerá sempre presente em nossas memórias, pois conseguiu a proeza de ser hílare e macambúzio, mágico e austero. O derradeiro foi mágico e comovente. Todos ascendendo os degraus da coruscante escada da nave especial pilotada pelo Ladir foi impagável. A emoção não coube no peito e transbordou pelos olhos, que transpareciam também a dor da perda de um programa cativante. Contudo, prantear o fenecimento do programa possa ser talvez uma ampla claudicação e pecado. Com tantos abusos e delinqüências covardes advindo neste chão de submergido, carpir a passagem de um programa é ser no mínimo egoísta. Temos que nos lamuriar da perda de um ente prezado, dos abusos contra menores, das duráveis pilhagens que sofremos de nossos governantes, da desumana incúria para com o Planeta, dentre várias outras coisas que nos deixam decepcionados e ruborizados. Para o “Toma Lá Dá Cá” não podemos oferecer nossas lágrimas. Era nosso eldorado. Com ele, vivíamos, mesmo que por parcos quarenta minutos, disjuntos de todos os problemas do orbe, imaginando viver num piso de abastanças e alacridades, onde não havia espaço para a consternação e ao achincalhe. Sua partida é desgostosa e padecida, no entanto, temos que içar a cabeça e seguir nosso caminho em frente. Nada está perdido. Dos mesmos progenitores, abrolharam os donairosos Sai de Baixo e Toma Lá Dá Cá e, sem dúvida qualquer, um terceiro filho virá para completar esta lacuna, formando um trio similar a Melquior, Baltasar e Gaspar, conhecidos como os Três Reis Magos. Iremos nos sentir por alguns instantes no lugar de Cristo e gozaremos dos presentes que os três juntos nos darão. Não podemos perder as esperanças. Temos que confiar na afável citação pichada por Tatalo em uma das paredes do apartamento de Celinha: “Nós Voltaremos!”.



Abraços!

4 comentários:

Unknown disse...

Acabou-se o que era doce. Só nos resta agradecer a toda a equipe de Toma Lá, Dá Cá pelos dois anos e meio de muita alegria.
O Toma Lá, Dá Cá estará para sempre em nossos corações!

Thalles disse...

Acabou essa suas palavras Vini me consolou.

PARA SEMPRE TOMA LA DA CA

Thiago Rodrigues disse...

Realmente a ficha demora mesmo a cair. No episódio de ontem não pude deixer da sentir mais tristeza do que alegria com as piadas e as situações sempre engraçadíssimas. Mesmo acostumado com finais de grandes séries de TV e ficar triste em todas, acho que poucas me deixaram com tantas saudades quanto Toma Lá Da Cá.

Que "Nós Voltaremos!" seja realmente uma promessa e que não tarde a acontecer...

stellamiranda disse...

Vinícius, mais uma vez seus comentários consegue ser comovente, conseguiu fazer um texto com tanta emoção.

Mirella